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A Educação Física Escolar e o Lúdico na Formação Humana

(Publicado em 20 de outubro de 2011)

O lúdico é um estado de transcendência. ”Instante recheado de prazer e liberdade de tempo e espaço, que não encontra outro fim, senão a vivência do próprio instante” (CATUNDA, 2005).

Esse contato só é possível de ser vivenciado pelos seres humanos, haja vista ser o lúdico, como sentimento, uma possibilidade exclusivamente humana. A busca de momentos agradáveis, do prazer, da alegria e do brincar acompanham o homem em toda sua evolução. No entanto, com as exigências das sociedades que foram se modernizando e assumindo um modelo de produção agressivo, o homo ludens foi perdendo suas características, e como uma pintura esquecida, foi se desgastando com o tempo.

Mas se o lúdico é parte da natureza e da cultura humana, como podemos abrir mão desse sentimento?

No princípio da vida, na infância, o brincar é socialmente aceitável. É no brincar que a criança concretiza suas experiências e utiliza o imaginário para desenvolver-se, e é por essas representações que ela se faz presente no mundo. Porém, na ânsia de antecipar o amadurecimento dos filhos para que se tornem competitivos na fase adulta, pais desavisados criam uma agenda recheada de compromissos para as crianças que deveriam ter mais tempo para o viver criança.

Neste quadro, a Educação Física escolar exerce papel significativo no oferecimento de vivências lúdicas, capazes de despertar e desenvolver a partir da infância, o sentimento de prazer em participar de atividades corporais. Essas primeiras experiências sistematizadas, se vividas de forma a desencadear experiências positivas, em muito contribuirá para que o futuro adulto, relacione a prática de atividades físicas e esportivas a algo que trás benefícios, alegria e contentamento e por isso poderá incorporá-las ao seu estilo de vida.

Para os adultos, um alerta de Negrine (2001), para quem a concepção de que o brincar está reservado às crianças nada mais é do que a perda da naturalidade humana, imposta pelo homem ao próprio homem, já que – a história nos diz – o adulto costumava dedicar muitas horas ao lazer.

Existe, porém o professor de Educação Física escolar, um ator de significativa importância nessa cena. É ele que assume a responsabilidades em propagar o lúdico no ambiente social escola. É ele o orientador de alunos, pais e gestores, na condução de uma ação mais efetiva no sentido da formação humana. Oferece a oportunidade da vivência lúdica como um bem a ser adquirido por todos para uma melhor convivência.

Ora, mas qual a importância que as pessoas na sociedade atual atribuem ao lúdico? Certamente não podemos ser ingênuos e com simplicidade, demonizar de forma particularizada um ou outro de uma série de eventos que ocorrem na vida, como: as novas tecnologias, o trabalho, a falta de educação para o bom uso do tempo livre, a fome, a violência, a escola, o desrespeito à natureza, a precariedade dos equipamentos públicos, os modos de vida de consumo dos urbanos, atribuindo-lhes culpa por produzir um humano sem graça.

Assim, levantamos algumas questões para reflexão: as pessoas têm reservado tempo e espaço para o brincar? Participam conjuntamente com a família e amigos de instantes de alegria e prazer em atividades lúdicas? Qual o lugar do lazer nas prioridades cotidianas? Você já reparou que nas atividades mais simples e que não custam nada, se concentram a maior parte das boas lembranças? Porque se corre tanto na busca do acúmulo de bens e poder de consumo?

Podemos categoricamente afirmar, que estamos diante de um novo paradigma para a formação humana. Um novo modelo, que efetivamente passa pela necessidade de um repensar o conceito de educação. Que passa por uma re-engenharia da escola. Que passa por professores que precisam ser mais valorizados, que sintam prazer e alegria ao ensinar, e que, assumam a responsabilidade devida com aquilo que representam. Mas que, acima de tudo, passa pelas relações familiares. De um jeito de ser família. De um crescer co-responsavelmente juntos. E assim mesmo, como um sonhador, um ser maravilhosamente utópico, pensar um mundo onde seja possível a aprendizagem do humano para o brincar, e entender que isso é ponte para uma vida feliz e saudável.

REFERÊNCIAS

CATUNDA, Ricardo. Brincar, criar e vivenciar na escola. Rio de Janeiro: Sprint, 2005.
NEGRINE, Airton. Ludicidade como Ciência. Santa Marli Pires dos Santos (Org.). Petrópolis: Vozes, 2001.