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Filosofando para o lazer socioambiental

(Publicado em 17 de outubro de 2011)

Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo (MASI, 2000).

O referido pensamento nos remete a fazer as seguintes reflexões: por que nos submeter a um trabalho torturante? Por que trabalho, conhecimento e diversão não podem constituir uma única e mesma atividade? Devemos trabalhar oito horas, dormir oito horas e ter oito horas de ócio? Ou precisamos incluir, no cotidiano, atividades que reúnam o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem? .

De acordo com essa concepção filosófica abordaremos aqui as implicações do lazer na vida do homem e suas implicações na sustentabilidade do meio ambiente e a responsabilidade social. Pois, segundo Aristóteles o Estado se compõe de uma comunidade de famílias e essas por sua vez compõem-se dos seguintes elementos: o chefe; a mulher, os filhos, os bens e os escravos.

Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias, assim como estas se compõem de muitos indivíduos, antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família, que precede cronologicamente o estado, como as partes precedem o todo. Segundo Aristóteles, a família compõe-se de quatro elementos: os filhos, a mulher, os bens, os escravos; além, naturalmente, do chefe a que pertence a direção da família. Deve ele guiar os filhos e as mulheres, em razão da imperfeição destes. Deve fazer frutificar seus bens, porquanto a família, além de um fim educativo, tem também um fim econômico. E, como ao estado, é-lhe essencial a propriedade, pois os homens têm necessidades materiais. No entanto, para que a propriedade seja produtora, são necessários instrumentos inanimados e animados; estes últimos seriam os escravos. (MUNDO DOS FILÓSOFOS, 2011)

Embora Aristóteles não negue a natureza humana ao escravo, considera que em decorrência da ocupação de seu tempo e pela falta de liberdade com o trabalho, não resta a possibilidade de providenciar a cultura da alma. Embora nos dias atuais não exista a “formalização da escravidão” nos moldes antigos, no entanto, percebe-se na sociedade atual outras formas de escravidão no trabalho e, portanto, a insuficiência dos horários de lazer e, conseqüentemente, a falta de tempo para alimentar a cultura da alma, tal qual, Aristóteles já descrevia.

Em sua obra intitulada “Política” Aristóteles defende que […] Na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios – esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais, tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas.

Também por isso Aristóteles, assim como Platão, fazem duras críticas ao Estado, que por meio de seus aparelhos ideológicos colabora com a formação de uma sociedade alienada. Na antiguidade era a educação militar de Esparta, que preparava os jovens para a guerra, já na atualidade é a educação neoliberalista que prepara os indivíduos para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e para a busca incessante de bens e consumos, sem levar em consideração os efeitos destes abusos para a sustentabilidade da vida no planeta.

Eis porque Aristóteles, como Platão, condena o estado que, ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral, visa a conquista e a guerra. E critica, dessa forma, a educação militar de Esparta, que faz da guerra a tarefa precípua do estado, e põe a conquista acima da virtude, enquanto a guerra, como o trabalho, são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. (MUNDO DOS FILÓSOFOS, 2011)

Etimologicamente a palavra Negócio (NEC – OTIUM) significa negar o ócio. Assim, segundo Ayub o advento da sociedade capitalista exige a ampliação dos negócios vindos de uma classe habituada a trabalhar. Naturalmente é estabelecido um código moral, uma espécie de responsabilidade social, onde é necessário o envolvimento em uma atividade produtiva que se transforme em produtos e/ou serviços que por sua vez vão gerar lucros. Isto na visão do referido autor faz com que o trabalho intelectual, anteriormente valorizado, passe a ser indigno. Pois, o ócio, antes necessário, passa a ser motivo de exclusão social.

Assim, em consonância com a citação de MASI, (2000) surge a seguinte questão: pode a qualidade de vida do ser humano ter como ferramenta o lazer e a responsabilidade socioambiental, tanto no trabalho, como no cotidiano das pessoas?

Consideramos e acreditamos que sim, pois a preservação do meio ambiente é possível por meio de atividades de lazer praticadas no ócio e, nesse tocante, o lazer ganha força nas atividades praticadas fora do ambiente de trabalho, por ser um meio privilegiado para o desenvolvimento pessoal, social e econômico, bem como um aspecto importante da qualidade de vida, que são fatores essenciais do desenvolvimento socioambiental para a sustentabilidade do planeta, tanto hoje quanto num futuro indefinido.

Portanto, recomendamos que pratiquem atividades físicas no “Ócio” (tempo livre), com enfoque em sustentabilidade, como forma de lazer para o bem-estar biopsicossocial e a responsabilidade socioambiental!

REFERÊNCIAS

AYUB, Monica. http://www2.uol.com.br/vyaestelar/ocio_criativo.htm acesso em 02/10/2011 18:30
MASI, Domenico de. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro, Sextante. 2000.
MUNDO DOS FILOSOFOS. http://www.mundodosfilosofos.com.br/aristoteles2.htm acesso em 02/10/2011 11:40

AUTORES
Francisco Edson Pereira Leite
Treinador Comportamental pelo IFT. professor.edsonleite@hotmail.com

Janio César Mendes Ferreira
Pesquisador do grupo Gestão Econômica dos Recursos Naturais e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia – UFRR. jangu121@hotmail.com

Jean Carlos Brustolin Alves
Consultor de Gestão da Qualidade do SEBRAE-RR. jeanbrustolin@hotmail.com