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Motricidade Humana - Um Paradigma Emergente

(Publicado em 11 de outubro de 2011)

Desde a década de 70 que a crise já se instalou na área da corporeidade e a mudança ocorre aos poucos, tendo alguns pensadores favorecendo a busca por uma reflexão filosófica mais aprofundada, dentre os quais podemos destacar Santin (1987) e Sérgio (1999 e 2000).

A compreensão das mudanças, atualmente, situa-se em outras esferas, mas não deixa de ser menos complexa do que no passado, temos sentido isso de perto, na caminhada pelas trilhas da Motricidade Humana, ao longo dos últimos 30anos, como profissional de Educação Física.

De acordo com Santin (1987) o homem realiza-se como unidade de ser corpóreo movido pela intencionalidade, constrói-se ao expressar-se na história e na linguagem e se expressa no trabalho e na inter-subjetividade. O autor postula, a necessidade de uma reflexão filosófica de questionamentos sobre a presença e o lugar do corpo na escola, na sociedade, na cultura e na política. Comenta ainda Santin: “Como corporeidade, o homem é movimento, é gesto, é linguagem, é presença, é expressão criativa (ibid)”.

No momento em que se questiona as taras do ter e do poder (SÉRGIO, 1999 e 2000), a omnienciência da ciência e seu paradigma cartesiano, há de se questionar também, o lugar do corpo no aprender e no reabilitar, há de se compreender que o movimento também é uma experiência muito emotiva, daí não ser correta a denominação Educação Física (TOJAL, 2004).

A Motricidade Humana enquanto um paradigma emergente (SÉRGIO, 1995, 1999 e 2000), não pode se esquivar deste questionamento, porque o corpo se faz motricidade.

A Motricidade Humana busca a explicação das condutas motoras para além do behaviorismo, do desportivismo e do psicologismo, porém englobando suas contribuições históricas e científicas (BARRETO, 2009).

O homem é inexplicável, mas suas condutas motoras, sua gestualidade, possuem toda uma intencionalidade possível de descrição, de significação. Entende-se, com Merlau-Ponty (apud SÉRGIO, 2000), que a grande contribuição da fenomenologia foi defender que a motricidade só é possível de ser aprendida globalmente, a partir da intencionalidade e da intersubjetividade, que distingue o homem dos animais ditos irracionais, facilitando desvendar o que há de oculto.

Para Sérgio (1995) o paradigma emergente caracteriza-se justamente pelo homem movimentando-se com sentido e conteúdo – o conteúdo do desejo e o sentido da transcendência. Para reforçar seu pensamento, Sérgio afirma que toda a existência do ser humano é uma sucessão de superação, de transcendência, em direção ao mais ser.

Para facilitar a compreensão do pensamento de Sérgio, que visa colocar a Motricidade Humana como um paradigma emergente, apresenta-se abaixo o que Feitosa (1994), considera como os sete tópicos principais desta nova abordagem:

  1. CORPOREIDADE – O homem é presença e espaço na história, com o corpo desde o corpo e através do corpo.
  2. MOTRICIDADE – A motricidade é a personalização, a humanização de todo o movimento humano.
  3. COMUNICAÇÃO E COOPERAÇÃO – O sentido do outro nasce da sua indispensabilidade ao meu ”estar-no-mundo”.
  4. HISTORICIDADE – A historicidade do homem consiste no fato de não poder conhecer-se, com uma análise exclusiva do presente, pois que ele vem de um “passado recordação”que o motiva e vai em direção a um “futuro-esperança”.
  5. LIBERDADE – Significa, aqui, passar do reino da necessidade ai reino da liberdade, que é reflexo e projeto de um sujeito historicamente contextualizado.
  6. NOOSFERA – Reino do espírito e da cultura, onde a especialização de vários saberes adquire o sentido da Totalidade Humana.
  7. TRANSCENDÊNCIA – O ser humano é um agir para mais ser.

Como destaca Sérgio (2000), a existência do Ser implica na sua realização. O homem é, pois, um apelo à transcendência, é um ser práxico (por praxis entendemos aqui o trabalho que transforma a realidade), que na totalidade humana, pela Motricidade a persegue. Por isto, a Motricidade Humana rejeita radicalmente a visão cartesiana e mecanicista do movimento humano (baseada meramente na anatomia, na fisiologia e na biomecânica), buscando elevá-la à condição de movimento-integração, que facilite a busca da transcendência, com base no desejo.